mp

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Burrice ou cinismo??

Sou de esquerda. Orgulho-me disso. Mas cada vez mais concordo com o Sousa Lara, que nos dizia na faculdade "Comigo, o lugar mais seguro para os comunistas é dentro desta sala. Lá fora, só não os como se não puder". Os comunistas prejudicam a esquerda na mesma medida em que a extrema-direita prejudica quem (como eu) acha que programas como o “Esquadrão G” são passíveis de incutir valores errados na juventude nacional. As pessoas têm a tendência de colocar no mesmo saco cognitivo quem partilha das mesmas convicções: eu só tenho pena se o meu filho for paneleiro, não o vou excomungar; nem odeio pretos (brasileiros, ciganos e monhés é caso-a-caso). Assim como acreditar nos valores da justiça social, da saúde e do ensino tendencialmente gratuitos não faz de mim um boçal que não é capaz de consubstanciar um monte de banalidades.
E os comunistas são isso. Não são todos, é certo, mas a maioria sim. Ou outros são tão obstinados que felizmente são uma espécie em extinção, porque ninguém os atura. No debate de hoje, em que os candidatos procuraram desesperadamente delimitar diferenças sem se atacarem demasiado (ou torna-se difícil uma reconciliação na segunda volta) um Jerónimo de Sousa rejuvenescido, jovial, bonito e impecavelmente bem vestido, defendeu mais uma vez uma série de sofismas de baixo valor intelectual e sem a mais remota substância. Este tipo de ideias, debatidas amenamente entre dois membros de partidos de esquerda, pode levar a que não se separe o trigo do joio. Mas Soares e Jerónimo não são iguais. Soares tem muitos defeitos, acredito mesmo existirem outras personalidades na mesma área política capazes de desempenhar o papel de candidato presidencial melhor do que ele – numa palavra, está velho. E há indivíduos mais novos com a mesma capacidade (leia-se Guterres, Vitorino e, porque não Ferro Rodrigues). Mas Soares não é parvo. Soares não é boçal. E, por mais que o aspecto elegante de Jerónimo me seduza, a verdade é que o homem ou é desonesto ou boçal. Desonesto não acredito.
Apenas um exemplo: “As multinacionais estavam a defender os seus interesses, as autoridades chinesas estavam a defender os seus interesses, e Portugal não foi capaz de pressionar um comissário europeu nada interessado em defender os seus interesses para que se pressionassem as cláusulas de salvaguarda [quanto à questão de liberalização dos texteis]”.

Sendo que:

1.º - 80% das exportações têxteis portuguesas são destinadas a Espanha e à Alemanha.

2.º - Há dez anos que se sabia da liberalização.

3.º - Portugal não se modernizou por falta de dinheiro – entrou imenso dinheiro nos últimos anos.

Vemos que:

a) Portugal não pode sair da União Europeia (aí queria ver para onde o Jerónimo exportava os têxteis. Ah, e de onde iríamos receber os fundos de coesão?)

b) Portugal, como um dos países menos expressivos da Europa a 25 (sobretudo por comermos rios de dinheiro e continuarmos dos mais pobres) não tem a mínima capacidade negocial, sobretudo para influenciar um acordo a esta escala, entre as duas maiores economias do mundo. E as cláusulas de salvaguarda apenas podem ser activadas em circunstâncias muito especiais.

Isto faz-me perguntar: o que se passa com os comunistas? Será desonestidade ou burrice? Quando estamos perante uma das maiores crises económicas da História nacional (não pela dimensão interna mas pelo contexto global), quando o estado consome 51% de todo o dinheirinho que eu produzo a suar até altas horas da noite e sem ter fins de semana, como é que é possível considerar que se podem manter privilégios arbitrários à função pública (sabendo ainda que a maior parte do orçamento de estado é para pagar ordenados?). Resposta do Jerónimo: “A função pública não tem privilégios a mais, os privados é que têm privilégios a menos”. Resposta do José Serrano: “Quando um funcionário público faz greve está a prejudicar-me de duas maneiras – porque me gasta dinheiro perdido em produtividade e porque não o posso despedir para arranjar alguém mais eficiente e que consuma menos recursos”. Não sei se é burrice ou cinismo, só sei que prejudica quem, como eu acredita verdadeiramente na esquerda, não a utiliza como capa para ser simplesmente um reles chulo.

PS: O problema da Autoeuropa: o grupo Wolkswagen está com problemas a nível mundial. A fábrica de Palmela necessita de ganhar mais um modelo para garantir a subsistência. Os trabalhadores depois de dois anos com os salários congelados vão ser aumentados em 2%, e as horas extraordinárias vão deixar de ser pagas pelo triplo. Os sindicatos querem 3,2% e horas extraordinárias pagas a triplicar (eu nem por elas recebo mas enfim). Sabem que a fábrica fica numa posição complicada e dizem que é responsabilidade do Governo intervir (por causa dos contratos dos privilégios concebidos, etc.). Para mim, se a fábrica fechar, ia buscá-los a eles e às famílias e explorava-os de todas as maneiras possíveis até recuperar todo o dinheiro investido pelo Estado, nem que os tivesse de esventrar todos e cortar às postas para vender em patê. É muito bonito fazer greve atirando as consequências para os outros...

1 Comments:

Blogger Guedes said...

Sim senhor. Estou espantado: grande texto. Não apenas pela quantidade, como pela qualidade dos argumentos usados, e pela rapidez com que foi (bem) escrito. Eu não o fazia, de certeza.
Não quer dizer que concorde com tudo, mas parabéns.
Quando é que atacas mesmo a política?!?!

12:30 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home