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terça-feira, janeiro 31, 2006

A Herança



Essa força da natureza que é o Carlos Malato chega agora com um novo programa, um concurso, definido pela página da RTP (aqui) como "O concurso de maior sucesso das televisões públicas de toda a Europa". Ao princípio não percebi muito bem o que isto queria dizer, mas obrigado que estava a ver o concurso até ao fim (estava em casa dos sogros, pelo que não tive grandes hipóteses) compreendi finalmente o mistério. Mas já lá iremos.
O programa é uma espécie de "O elo mais fraco" em que os concorrentes, quando erram, podem passar a batata quente a outro - se este errar uma pergunta, o que lhe passou a batata fica com o seu dinheiro acumulado (a "herança") e vê o outro ir-se embora. Se o gajo a quem a batata quente for passada responder correctamente, dá-se o processo inverso. Até aqui tudo bem. Este processo vai cereando o número de concorrentes, até que ficam dois, a jogar um contra o outro e no final fica o que tiver mais dinheiro. Parece lógico. O que não é nada lógico é o jogo final, em que o concorrente tem de adivinhar um termo/conceito/nome fechado num envelope, com base em cinco pistas. Cada pista dada pelo apresentador tem duas hipóteses contrárias, uma certa e a outra obviamente errada. A cada escolha errada da pista o concorrente perde metade do dinheiro que tem. Exemplificando, o concorrente hoje, o "Miguel" (creio que foi o primeiro programa) tinha 130 mil euros. As pistas que foram dadas: 1 - Direito/Esquerdo (escolheu esquerdo, era direito), 2 - Pacífico/Atlântico (era pacífico, escolheu a outra), 3 - George Bush/George Orwell (escolheu Bush, errado), 4 - 1869/1969 (escolheu erradamente a segunda), 5 - Richard Gere/Richard Attenborough (escolheu a segunda correctamente). A cada erro foi perdendo metade do dinheiro que fazia pena, acabando a ronda das pistas com uns miseráveis 16 mil e poucos euros, que com 50% de impostos em cima não dão em nada. Mas o pior ainda estava para vir. Para ganhar finalmente o suado dinheiro tinha de agarrar neste conjunto de pistas completamente arbitrárias à vista da maioria e escrever a palavra que estava no envelope. O pobre moço que trouxe os pais para a assistência não fez mais nada que deixar o cartão em branco e francamente não o censuro. A palavra no envelope, aberto com pompa e disfarçada triste circunstância pelo Malato era, pasmem-se "Ghandi". A explicação: "Ghandi tirou o curso de DIREITO em Inglaterra, nasceu em 1869, na India tal como GEORGE ORWELL, era PACÍFICO, e teve direito a um filme rodado por RICHARD ATTEMBOROUGH. Mas que diabo! Já não bastava as pistas serem completamente idiotas e ser necessário um índice de cultura geral ao nível de um professor universitário, ainda tinham que utilizar técnicas de intoxicação idiotas como "Direito/Esquerdo" ou mais escandalosamente "Pacífico/Atlântico"??? Tinham ainda que a cada pista cortar metade (METADE!!) ao homem, para baixar ao máximo as possibilidades de levar muito dinheiro à impossível pergunta final? Mas fez-se luz: "O concurso de maior sucesso nas televisões públicas" - PÚBLICAS! Aí está! As TVs públicas têm de ter dinheiro para ser mal gasto, sustentar montes de gente na prateleira e ainda ter arcaboiço para aguentar com os constantes erros estratégicos crassos, não podem andar por aí a dar dinheiro!! Concursos como o "Quem quer ser milionário" foram sucessos de audiência e ajudaram, acredito, a ensinar algumas coisas ao português comum. Agora este aborto vai muito possivelmente falhar. É desinteressante e estupidamente difícil, sobretudo para os valores em questão. E as audiências são burras mas gostam de ser entretidas e não há entretenimento em percorrer um campo minado e perder um membro a cada passada (pelo menos para a maioria). É uma pena, porque o Malato até gera empatia com concorrentes e público, mas não vai ser este certamente o auge da sua carreira televisiva.

4 Comments:

Blogger Guedes said...

Se bem percebi, o gajo foi para casa de mãos a abanar? É impossível alguém acertar nessas perguntas, que na verdade nem o são.
Grande análise ao nosso serviço público. É também para ele que pagamos impostos.

3:43 da manhã  
Blogger Zé Pedro said...

Perdeu tudinho foi um desgosto de ver.

9:52 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Concordo com a crítica feita ao programa, e tenho ainda que acrescentar:
1º O valor dos prémios em causa já é "limpo", isto é, não leva com impostos em cima...esta lei tem cerca de 5 ou 6 anos e serve para os concorrentes não irem ao engano.
2º O "Miguel", infelizmente, ficou de mãos a abanar, e ganhou apenas o direito de passar à sessão seguinte onde, certamente, será eliminado logo, uma vez que tem mais dinheiro e a aleatoriedade das perguntas não abonam nada para ninguém...
3º No concurso "o cofre", apenas negociantes e o finalista, levavam dinheiro para casa...nos outros casos os euros eram "pontos".
4º A dúvida final talvez não seja tão difícil à segunda vez, habituados às manhas...
5º Os concorrentes têm direito, não ganhando nada, a 80€ em ajudas de custo, que não dão para um cidadão do porto e acompanhante irem e virem...serviço público à bela maneira portuguesa.
6º E pronto.

3:54 da tarde  
Blogger Zé Pedro said...

Obrigado pelos exclarecimentos sobre alguns pontos importantes. Ontem continuou o massacre, apesar da resposta ("Camões") já não ser impossivelmente difícil. Era apenas muito complexa, considerando a quantidade de correlações necessárias para lá chegar e a cultura geral exigida.

9:35 da manhã  

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