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domingo, outubro 02, 2005

O Correio da Manha e um Kolmi

Assim comecou a historia que se segue: pelo jornal mais lido da imprensa portuguesa e com um servico que as empresas de telemoveis nacionais inventaram para levar alguem que nao tem dinheiro ou nao o quer gastar, a gasta-lo atraves de outro.

Ze Manuel - o nome verdadeiro nunca cheguei a perguntar - foi padeiro durante 25 anos. Ao fim de milhares de noites a amassar pao, abandonou a profissao. Nao que nao houvesse trabalho. Apenas se fartou de ganhar 350 euros ao fim do mes.
No comboio que no passado dia 14 de Setembro saiu de Lisboa para Franca - o Sud Express ja nao chega a Paris -, Ze era uma das muitas pessoas que poderiam perfeitamente encaixar neste mesmo comboio ha 30 anos, quando foi construido em 1974 na fabrica da Sorefame na Amadora. As carruagens, a que chamariam o "Comboio da Liberdade", continuam iguais as que antes do 25 de Abril comecaram a levar emigrantes para o resto da Europa e trouxeram Mario Soares do exilio depois da Revolucao.
Nao ha qualquer sistema de som em todo o comboio. Ninguem diz em que estacao vamos e as cabecas continuam a aparecer ao vento a janela durante quase todo o percurso. Os bancos castanhos de algo que parece pele continuam iguais. O sino que avisa que o bar abriu para quem queira tomar o pequeno almoco continua a ser abanado todas as manhas ao longo do comboio por um trabalhador da CP que, nao fosse a idade, tambem poderia estar naquele posto ha 30 anos.

Quarenta e tal anos. Camisa branca meia aberta com os pelos do peito de fora. Sapato preto bem engraxado. Calcas de ganga tipicas. Cabelo bem penteado com risco ao lado. Bigode aparado ate ao mais infimo pormenor. Mala preta. Apenas o telemovel Nokia com uma capa rosa e um desenho de uma mulher nua destoava do cenario onde poderiamos encaixar Ze Manuel no Sud Express em 1974.
Nascido perto de Viseu, com sotaque carregado e usando as asneiras como virgulas (apesar de viver em Lisboa ha decadas), Ze nunca tinha feito uma viajem tao grande de comboio. Ha umas semanas foi ele, juntamente com um emigrante mais velho e um frances que tinha cindo ao Barreiro visitar a namorada, um dos meus colegas de viajem para terras gaulesas.

Depois de abandonar a arte do pao, o ex-padeiro decidiu abracar a profissao que desse mais dinheiro. Na pratica, as obras. Mas nao em Portugal. Ai, garante, "esta tudo ocupado por pretos e ucranianos que trabalham por tuta e meia". Neste verdadeiro domino dos empresarios que querem pagar o minimo possivel e os trabalhadores que querem receber o maximo, Ze Manuel teve que emigrar. Mas nao em definitivo como antigamente. Faz o que aparece. Ja esteve na Suica - para onde foi de aviao. Agora ia para Espanha, mais precisamente Burgos.
"Vi um anuncio no Correio da Manha a pedirem pessoal para trabalhar. Mandei um Kolmi e o cabrao do homem respondeu-me. Pediu mais dois gajos, mas a ultima da hora o unico filho-da-puta que arranjei desapareceu. Amigo nao empata amigo, e vim sozinho", conta o novo emigrante portugues.
Para tras deixou a mulher de quem se despediu da janela do Sud Express na estacao de Santa Apolonia e que mais tarde lhe enviou o resultado do jogo do Benfica dessa noite, e os filhos, que estavam a comecar o ano escolar.
As duas da manha chegou a Burgos. A sua espera contava ter um sitio para dormir e o homem que no dia anterior lhe respondeu ao Kolmi.

3 Comments:

Anonymous Antunes said...

Impressionante! Inacreditável!

Se não escreveres tu o livro, escrevo eu hehe

4:15 da manhã  
Blogger Zé Pedro said...

O homem é um artista! Asneiras como vírgulas foi a melhor metáfora que li este ano. Está uma crónica de costumes do melhor. Vinte destas e fazes um livro.

10:29 da manhã  
Blogger Leididi said...

Tu aponta isso tudo em papel porque nunca fiando nos computadores, hã?Isto é material quase tão bom como o Sul, do miguel sousa tavares ;)

10:15 da tarde  

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