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sexta-feira, setembro 16, 2011

Crazy India

IC19, mais ou menos 18 horas depois de sair de Deli. Algo soa a estranho: o silêncio; a pacatez dos condutores; ninguém buzina.
Em estradas estreitas e com o que parecem ser poucas ou nenhumas regras, buzinar não é apenas uma forma de protesto. Serve, percebemos aos poucos, para comunicar com os outros condutores. Como quem diz: “estou aqui”; “vê-me”; “quero e vou passar”. Carrinhas e camiões têm o pedido expressamente escrito na traseira: “buzina, por favor!”.
O resultado é uma cacofonia de sons e condutores de autocarro que passam mais de metade das viagens numa barulheira insuportável. Em estradas que parecem ter poucas regras, demasiado estreitas para caber, muitas vezes, poucos mais do que um carro, e veículos a precisar de um merecido descanso na sucata, esta parece ser a melhor forma de evitar acidentes.
Por um lado, há vontade de proibir todos os indianos de conduzir. Por outro, é fascinante a forma como tudo parece funcionar no meio de uma organização que não parece ter qualquer sentido.
A Índia é assim: uma terra onde parece que quase nada funciona, mas onde quase tudo acaba por se fazer, mesmo se por caminhos menos convencionais para quem chega de fora. E é essa diferença que, tapando os ouvidos ou fechando de vez em quando os olhos, pode ser surpreendente.

A pobreza, por aqui, não será estatisticamente tão grave como em África, mas é mais chocante, mais visível, mais exposta no meio das cidades e tem como resultado uma multidão de sem abrigo, pedintes, homens e mulheres claramente sujos que vivem e fazem tudo ao sol ou à chuva.
Noutro extremo, encontramos um pequeno grupo com padrões de vida ocidentais, que fala inglês como se estivesse em Oxford, e usa roupas e telemóveis da moda.


Se eu gostei da Índia? Sim e não. Ainda não tenho a certeza. Sentimentos mistos.
Primeiro, não vimos nada estupidamente deslumbrante, onde se estivesse tão bem que me levasse a dizer: “um dia quero cá voltar”. O mais próximo desse ponto aconteceu no Templo Dourado, em Amristar, e nalgumas zonas coladas aos Himalaias. A partir daí, nada de fenomenal nos passou à frente.
A realidade ficou longe das imagens das promoções turísticas e que passam por uma Índia colorida e limpa. O dia-a-dia é demasiadas vezes sujo, porco, gritantemente pobre. Muitas ruas são verdadeiras lixeiras que alimentam vacas, porcos, cães e alguns humanos.

O que me pode levar, então, a dizer que gostei da Índia? Essencialmente a diferença, o brutal contraste cultural face ao que estou habituado.
Peguemos no exemplo das vacas. Para qualquer ocidental não faz sentido ter um animal tão grande como uma espécie de animal de estimação a quem se dá comida e se deixa a passear durante o dia. Não terá qualquer lógica ter ruas no pára-arranca porque uma vaca decidiu fazer uma sesta, impassível perante os carros que se aproximam.
Na Índia tudo isto tem lógica. É racional. A nossa realidade é que lhes parece absurda. Faz-lhes sentido ter vacas, tal como dar doces às estátuas dos deuses ou venerar imagens que parecem calhaus e ratos que se passeiam num templo que é pouco mais que uma barraca. Tomar banho em rios mais que poluídos é outra virtude, ao lado de atirar lixo para o chão, mijar em qualquer lado, ter carruagens e filas separadas para homens e mulheres, ou deitarem-se e dormirem em qualquer lado. Não choca por um anúncio no jornal para procurar um noivo para a filha dentro da mesma casta. Há quem ganhe a vida a limpar dentes ou ouvidos no meio das ruas por 10 rupias (menos de 20 cêntimos).
É esta diferença que, mesmo sem paisagens deslumbrantes, pode fazer de um dia aborrecido numa cidade mais feia que qualquer subúrbio lisboeta uma experiência que parece única e, acima de tudo, surreal. É esse contraste que pode fazer de uma viagem chata, de quase um dia no comboio, um tempo que no final foi estupidamente educativo pelo comportamentos que se vêem à volta e pelas pessoas interessantes com que, por vezes, se consegue ter uma conversa em que nos explicam um pouco da sua curiosa vida num país que nos parece de loucos.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Perdemos um dia para tentar ver lava, chegar lá acima e receber como resposta "não há desde 2006". Falhámos por quase 2 meses. O Merapi entrou agora em erupção e já causou vítimas: aqui. ´
O topo do Merapi ficou invisível atrás das nuvens: uma subida de quase uma hora pelo meio da mata não foi suficiente para vê-lo mais de perto. Mesmo assim, foi uma visita interessante. Agora, a senhora das fotos já deve ter sido evacuada; os macacos que nos assaltavam a mala à procura de comida bateram em retirada ou morreram assados; a carrinha velha que servia de transporte público e onde chovia por dentro deve estar há dias estacionada na muito interessante cidade de Yogyakarta.







quinta-feira, abril 15, 2010

Yushu

Yushu, região de Qinghai. Terramoto, centenas de mortos numa região quase deserta da China. Foi uma das primeiras notícias que vi de manhã nas agências. Nunca me tinha acontecido: não me recordo de conhecer um sítio devastado por um desastre natural.
Basicamente fomos a Yushu porque era impossível ir ao Tibete (falta de tempo e dinheiro). A alternativa era uma região na fronteira com a região autónoma chinesa que o livro dizia ser, na prática, também tibetana. Esperavam-nos 16 horas de viagem num autocarro com pequenos beliches em vez dos tradicionais bancos, num enorme planalto com um tamanho que parece maior do que a Península Ibérica e apenas uma cidade digna desse estatuto, algumas casas e espaços de oração dispersos.
Mesmo com fortes dores de cabeça que quase me levaram ao delírio e apesar de no final termos sido obrigados a regressar fazendo mais 2.000 quilómetros do que o previsto porque as autoridades chinesas proibiam a venda de bilhetes de autocarro a estrangeiros para um determinado percurso, Yushu acabou por ser o local que mais me marcou na China. Aquele de que guardo provavelmente mais e melhores recordações.
Yushu é apenas uma pequena cidade de 80 mil pessoas (Queluz tem mais...) no meio do nada do gigante planalto tibetano. Apenas não está no mapa da região autónoma do Tibete por razões políticas. Geograficamente está rodeada de montes verdes e incalculáveis quilómetros onde raramente se vê viva alma. Vêem-se rios, iaques e pequenas elevações cheias de mantras (orações budistas) em panos.
À cidade, dominada por comerciantes chineses, chegam tibetanos que fazem quilómetros e quilómetros para ir às compras. Quase todos vestidos ‘à dalai lama’. A uma-duas horas de distância há templos e santuários com cores e feitios que apenas imagens podem descrever correctamente e onde só se chega de táxi e se volta à boleia de simpáticos tibetanos a quem é difícil dizer não.
Não há turistas. Ninguém fala inglês. Um cenário quase inimaginável.
As imagens que chegaram hoje pelas notícias mostram ruas onde as casas parecem ter todas desabado. Yushu terá sido o epicentro deste sismo de 6.9. As fotos que apresento a seguir têm dois anos. Algumas coloquei por aqui nessa altura (aqui). Outras recuperei no arquivo.
Suspeito que muitos destes mosteiros e templos, que os tibetanos adoram quase como loucos, já não existem. Algumas casas mais humildes estavam forradas a bosta de iaque. Uma das minhas maiores curiosidades passa por saber o que aconteceu a um santuário do tamanho de um campo de futebol ocupado por um molho gigante de dois a três metros de pedras (com inscriçoes de orações tibetanas) percorrido incessantemente em peregrinação no sentido dos ponteiros do relógio.


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terça-feira, setembro 22, 2009

Quénia e Uganda: tentativa de combater uma memória fraca

Viagem de regresso. Mais uma escala no Dubai. Não consigo deixar de me irritar com o luxo que vejo à minha volta.
O Mundo é sem dúvida um lugar estranho - injusto ao limite do absurdo. Venho de um sítio onde não há luz em quase todas as casas. A água está longe de ser limpa e vai-se buscar a fontes que ficam demasiadas vezes longe. Nenhuma garrafa de plástico vai para o caixote do lixo que, mesmo que quisessemos, não existia. Médicos, nem vê-los. Escola, só para uma parte. A comida não chega para todos e a carne é quase uma iguaria rara.
Chego ao Dubai e o que mais encontro no aeroporto é a palavra luxo: fontes gigantes, chão de mármore, marcas e mais marcas por todo o lado. Sorteiam-se bugatis e maseratis para quem faça compras que na maioria dos casos se podem considerar inúteis num duty free gigante. Regresso a esta estranha (e injusta) onda consumista em que vivemos e rapidamente me (re)habituo: começo a procurar uma máquina fotográfica que substitua aquela que se avariou a quatro dias do fim da viagem.

A memória irrita-me. Pelo menos a minha é estupidamente curta. Rapidamente me esqueço de tudo. Experiências que adorei rapidamente passam para o baú das recordações vagas, de onde esqueço os detalhes e guardo apenas uma sensação geral. Acabo sempre uma viagem a qualquer sítio com uma enorme pena de saber que me vou esquecer de grande parte daquilo porque passei e dos pormenores dos sítios onde estive. O exercício que vou fazer a seguir chega com um mês de atraso, mas serve para combater essa falta de memória - minha e da Ana.

Quénia e Uganda

Não deve existir maior elogio que possa fazer a um sítio. Nos últimos anos tenho feito algumas viagens relativamente longas - 3 a 4 semanas de cada vez. Gostei muito de todas, mesmo com dores de dentes e doenças sem explicação pelo meio. Em todas ficaram coisas por ver e de cada uma retirei no máximo dois sítios de onde saí nostálgico, com muita vontade de estar ali mais tempo e voltar mais tarde.
Nunca fui a Nova Iorque, mas imagino que ir ao Empire State Building seja como visitar a Torre Eiffel em Paris ou as pirâmides no Cairo: saímos de lá satisfeitos e contentes, mas sem grande vontade de voltar. É bonito, fantástico, até, mas está visto. A vida é curta e há muita coisa para ver no Mundo.
Depois, para encontrar aqueles sítios de que se gosta mesmo, é uma questão de gosto (pessoal). Há quem goste de cidades. Há quem goste de campo ou natureza. Há quem goste de praia. Há quem goste de uma conjugação de coisas que não se consegue explicar.
Desta vez encontrei pelo menos quatro sítios daqueles que marcam e onde quero voltar a por os pés. Pelo menos outros tantos foram estudados mas ficaram por visitar por manifesta falta de tempo. Primeiro do Uganda e depois do Quénia, saí triste, cabisbaixo, e com uma enorme vontade de regressar para ver mais coisas e revisitar sítios que achei fantásticos. É difícil explicar porquê. É isso que vou tentar fazer a seguir.

Lotações elásticas e motores humanos

Como se viaja em África? Era uma séria dúvida que tínhamos.
Existe a forma confortável: queremos ir a um sítio (quase sempre um parque ou reserva natural), pagamos a uma espécie de agência e eles organizam tudo. Uma pequena “ilha móvel” de brancos, que se desloca pelas estradas com um condutor (negro) e tudo pré-programado. Foi assim que fizemos um safari de dois dias e meio – seria possível fazer de outra forma, mas era muito complicado. Fica caro e apenas conhecemos a África dos bichos – esqueçam as pessoas.
Depois, há as formas de viajar que utiliza quem vive por aqui – aquelas que dão mais gozo, permitem experiências mais ricas (e mais baratas), mas que podem dar muito trabalho e chatices. Como no Médio Oriente ou Norte de África, aqui não há aquilo a que podemos chamar, pelo padrão europeu, transportes públicos.
A expressão correcta será transportes colectivos. Existem pequenas empresas ou um empresário dono de um ou mais meios de transporte: autocarros, carrinhas, carros, motas ou bicicletas que percorrem regularmente um determinado percurso. Por norma, só partem quando estão cheios. Os clientes habituais conhecem os preços. Quem chega de fora (e é branco) paga frequentes vezes acima da tabela.
Comecemos pelos mais pequenos. Várias localidades (a definição de cidade será complicada...) têm milhares de homens cujo trabalho é pedalar uma bicicleta com um banco almofadado atrás. Chamam-se boda-boda. No máximo, pelo que vi, levam dois passageiros. É barato. Foi o único meio de transporte onde não andámos.
No entanto, alugámos bicicletas nos lagos Naivasha, Nkuruba e Bogoria. Umas razoáveis; outras nem por isso - sem travões ou cuja única mudança possível nas súbidas é à mão. Permitem liberdade e foram uma óptima forma de encontrar girafas, zebras ou procurar uma cascata e percorrer uma floresta tropical.


As 'nossas' bicicletas. Ao fundo, flamingos.Uma bicicleta no Uganda, no mínimo, bonita. Não sei quem é a Jennifer Paris.

Ainda nas duas rodas, há boda-bodas que abandonaram o motor humano: usam uma mota semelhante àquelas que se vêem nas aldeias portuguesas. Servem para pequenas distâncias maiores do que a bicicleta. No máximo, vimos três passageiros. Usámos em Jinja (Uganda), Watamu e lago Naivasha (Quénia). Nunca pensei andar com a Ana e mais um tipo de mota.


Perto do Índico, em Mombasa, usámos ainda aquilo a que os locais chamam tuk tuk - por causa do barulho. Um triciclo a motor para 3 passageiros.


O rei da estrada é, no entanto, o matatu: pequenas carrinhas Nissan ou Toyota que enchem as cidades e estradas do Quénia e Uganda. Formalmente, estão licenciadas para 14 passageiros. No máximo, contámos 21 clientes (recorde registado entre Marigat e o Lago Baringo), sem contar com o condutor e vendedor de bilhetes/angariador de passageiros. O lema, dizem, é que “há sempre espaço para mais um”. A polícia recebe umas notas e fecha os olhos. Alguns clientes escondem-se por entre os bancos.
Muitos matatus estão todos partidos por dentro e por fora. Os cintos raramente funcionam e não chegariam para todos. Alguns, no entanto, têm televisão e quase sempre música (africana, claro) aos berros. Vários, alteram e personalizam drasticamente a carrinha por temas - um clube inglês, um desporto, um cantor, um ídolo, Deus...
Autoclantes revelam uma fé inabalável na intervenção divina e ultrapassam descaradamente os limites de velocidade - mesmo que o velocímetro raramente funcione e tenham o motor limitado a 80km/h. São considerados inseguros. Para um viajante independente, sem carro, não há outra forma de viajar por estes lados do Mundo: cobrem todas as distâncias - pequenas, médias ou longas. São práticos e o que de mais rápido se encontra.

Olha a quantidade em Kampala.
Quando um percurso tem apenas alguns (poucos) clientes que não justificam uma carrinha de 14 (fictícios) lugares, existem carros pequenos a que poderíamos chamar ‘normais’, não fosse o facto de estarem quase sempre escavacados ao ponto de em Portugal não passarem da sucata.
Em Lisboa seriam um taxi para 4 passageiros. Aqui, levam, no máximo, 11: três à frente (um deles no mesmo banco do condutor), quatro atrás e outros quatro na bagageira.
Tal como nos matatus, nestas contas não incluímos crianças - não pagam bilhete e são consideradas uma espécie de bagagem. Com espaço, vão ao colo. Nos autocarros os mais pequenos recebem o mesmo tratamento – numa viagem de 12 horas (Kampala-Nakuru, por exemplo), vão ao colo.
Os autocarros também existem, mas, no entanto, em muito menor quantidade e são muito menos flexíveis. Podem demorar mais de duas horas a encher (e partir). As estradas são sempre péssimas e viajar nos bancos de trás é tipo cama elástica (muito mais dura).
Andar de ‘transportes públicos’ pode ser difícil e dar (muitas) dores de cabeça. Parece que somos frequentemente enganados nos preços, mas é das experiências mais divertidas. Mesmo sabendo que, estatisticamente, ter um acidente é o problema mais provável que se pode ter por estes lados do Mundo.
Um luxo!

Amor e wrestling.

Dormir com os hipopótamos

Dormir em África podia ser penoso. A maioria dos hotéis ficam numa 'normal' habitação africana: tábuas de madeira e chapa. Frequentes vezes juntam “Hotel e Talho” (assim, literalmente) no mesmo sítio. Têm nomes engraçados e até apelativos - algo como Londres Inn. Seria quase como dormir numa barraca – o sítio onde dorme a maioria dos africanos.
Não chegámos tão longe, mas passámos uma noite num hotel (em Mombasa) rodeados de algumas pequenas baratas nas paredes e um barulho ensurdecedor de uma cozinha nocturna. Não foi simpático, mas não havia alternativa e ficou longe ser o fim do mundo. Pelo quarto pagámos algo como 5 euros.
Contraditório, no meio deste cenário e em sítios inesperados, há locais inesquecíveis para descansar ou simplesmente dormir. Custou-me a acreditar (e por isso não veio), mas trazer tenda e acampar podia ser muitas vezes a melhor opção.
Há parques (ou campos) fantásticos e, em alternativa, alugam-se tendas e bandas (tipo cabanas) em sítios quase inacreditáveis.
Encontrámos exemplos numa cabana do lago Naivasha com vista para hipopótamos e rodeada de macacos que roubam bananas, mas também no Nilo com a melhor paisagem que já vi de uma cama. Depois, no lago Baringo, tomámos o pequeno almoço rodeados de aves de todas as cores, com crocodilos à beira da água e hipopótamos que pastavam (tipo vaca) durante toda a noite à volta da tenda impedindo qualquer ida à casa-de-banho. No lago Nkuruba, com comida feita por um padre, olhámos para uma floresta tropical e montes verdes cheios de bananeiras. Finalmente, no Mida Creek, à beira do Índico, encontrámos uma cabana de dois andares iluminada a candeeiro a petróleo, com vista para uma floresta de árvores resistentes ao sal, numa ria de água transparente.

A primeira cabana (em Nairobi).

O típico hotel africano. E este até é 'simpático'. O campo de Naivasha.
O hipopótamo ao fundo.
Vizinhos.

A cabana com vista para o Nilo. Reparem no chuveiro.


O campo de Nkuruba.

O campo do lago Baringo.
Os hipopótamos vistos da tenda.
A cabana no Mida Creek.


Telemóvel sem electricidade

Há coisas que para ‘nós’ são básicas: água limpa e canalizada para tomar banho ou beber; um sistema de saúde e de educação; electricidade; calçado; esgotos; gás; televisão.
Portugal é um país que muitos de ‘nós’ consideramos “atrasado”. Na cauda da Europa... claro. É tudo uma questão de perspectiva – ponto de comparação.
Fazer uma viagem de autocarro com TV no meio de África pode ser uma experiência diferente. No Uganda, mas também em menor percentagem no Quénia, menos de 5 por cento da população tem acesso a electricidade. Parece um passado distante, mas ainda há muitos sítios assim, facto que não impede muitos quenianos e ugandeses de terem telemóvel – pequenas barracas 'vendem' o serviço de carregamento.
À falta de luz está no entanto associada a ausência de muitas outras coisas. Frigorifico? O peixe é seco ou fumado. Lâmpadas? Os candeeiros a óleo ou lamparinas de lata resolvem. Televisão? A rádio contínua a ser o principal meio de comunicação e o pequeno écran, em muitos sítios, só existe numa espécie de sala de cinema feita de madeira e palha para onde se anunciam os dias de jogos da Liga Inglesa.
Depois, há a água: muitos recursos (percebi agora) gastamos nós no dia-a-dia de um país desenvolvido. Em África seriam semanas a caminhar para a fonte mais próxima, que pode estar a vários quilómetros de distância e longe de ser limpa.
O gás também é substituído por micro-fogões a lenha ou carvão feitos de chapa ou barro que se vendem aos montes nas ruas. O metal de tachos e panelas ainda se encontra trabalhado a martelo nas ruas como nos filmes da idade média.
Fazer uma viagem de autocarro com TV em Portugal é uma experiência normal. Olhem à volta: meia dúzia estarão atentos; os outros estarão a dormir. No Uganda as cabeças negras de adultos vão todas levantadas com ar de espanto, tipo crianças a ver desenhos animados.
Há 50 anos, Portugal devia ser parecido.

Formas de transportar água.
Transporte de carvão.
A sala com televisão da cidade.
MTN: Uma loja de telemóveis.
Formas de aquecer água do banho (para quem tem direito a ela).
A lavar a roupa.

Não me perguntem se gostei do Uganda

Ainda hoje não sei explicar bem o que lá fomos fazer. Eu até sei, mas as razões são complexas: quando passámos a fronteira de ar decadente às 6 da manhã depois de 10 horas de autocarro já tínhamos decidido que não podíamos ver aquilo que realmente queríamos no Uganda. Reformulámos tudo e alterámos o percurso: viagens (ainda mais) longas e (quase) impossíveis que eram a primeira escolha tiveram de ser abandonadas. Procurámos alternativas, mesmo não sendo particularmente estimulantes. Apenas porque queríamos (sobretudo eu) ir ao Uganda.
O nome (Uganda), efectivamente, não nos diz muito. Será mais um país africano... É longe. Os portugueses acho que não andaram por lá. Ninguém os conhece pelos safaris - apesar de também existirem. Não tem praias, mas apenas muitos lagos.
O que nos trouxe então ao Uganda? Talvez a ideia de que é um país ainda mais distante e menos ocidentalizado. Talvez a ideia de que era diferente de tudo o que estou habituado.
Não sei se são o povo mais simpático de África, como dizem alguns guias, mas estarão pelo menos lá perto. Sete filhos por mulher, mais de 80 por cento a viver do campo e uma pobreza que salta à vista não foram desculpa para quem quer que seja nos tentar enganar.
Pela primeira vez na vida senti-me não apenas rico, mas também milionário: têm um dos PIBs mais baixos do mundo; a riqueza média produzida por cada português é perto de 60 vezes superior à de quem vive no Uganda – algo como 210 euros por ano... menos de 20 euros por mês. Um motorista terá um salário de menos de 10 euros.
A paisagem é bonita, mas sem os grandes bichos em abundância do país vizinho. Não é isso, no entanto, que marca. Raramente nos lembramos disso, mas há mesmo muita gente com fome no Mundo. Não basta ouvir, é preciso ver.
Nos campos, os miúdos aparecem aos molhos do meio do nada: 50% da população tem menos de 14 anos e o Uganda é o país do mundo com maior percentagem de crianças.
Muitos têm as ‘famosas’ barrigas grandes: 40 por cento das crianças do Uganda sofrem de má nutrição. Descalços, ranhosos, sujos, carregam água, passeiam cabras ou brincam. Há animais domésticos mais bem tratados em Portugal. Pedem de vez em quando dinheiro, canetas ou doces. Abanam a mão como quem diz 'adeus' e gritam em coro “How are you!, How are you!, How are you!”, como se fosse a única frase que aprenderam numa escola que apenas alguns frequentam. Sentimos que somos dos primeiros brancos que vêem. Saem às dezenas do meio do nada, de onde só parece existir árvores e arbustos. No meio, bem no meio, há casas: madeira e lama com telhado de palha.
Não me perguntem se gostei do Uganda: esqueço a parte má e digo que "sim, gostei". A diferença face ao nosso lado do mundo é fascinante, mesmo não tendo piada nenhuma para quem lá vive.

Kibali, uma floresta tropical no Uganda.
Uganda

Brancos e pretos

Mzungu sou eu. Também era a Ana. E devem ser a maioria dos leitores destas linhas. ‘Mzungu’ significca branco em suaíli – uma das línguas africanas que mais se usa por estes lados. Era, também, a forma normalmente não agressiva como éramos saudados nas ruas (sobretudo) do Uganda. Às vezes chateia, admito, mas acaba por entrar no ouvido. E se fosse eu a chamar-lhes ‘pretos’?! Desconheço a reacção – não arrisquei. Mas a verdade é que eu sou tão branco como eles são pretos. Esquecendo todas as conotações negativas das palavras, é apenas um facto.


“Promove-me!” ou a missa do autocarro

Milhões de africanos vivem a vender na rua. Uns pousam os seus produtos no chão. Outros carregam-nos para dentro dos ‘transportes públicos’ enquanto estes não enchem e têm passageiros à espera de chegar ao destino.
De tudo se vende e a ida ao supermercado pode ser completamente desnecessária. Há chupa-chupas, bolachas, sumos, iogurtes e águas. Mas também bananas, milho, salsichas ou menus completos embrulhados em celofane. Nas utilidades encontramos facas, navalhas, óculos, meias e cuecas, ao lado de kits para limpar as unhas, pequenas máquinas de barbear ou carregadores de telemóvel e livros para aprender línguas.
De forma mais ou menos agressiva ou insistente, de tudo um pouco nos foi posto à frente do nariz. Ninguém escapa ao assédio, que no nosso caso pode ser complementado com um pedido de ajuda do tipo “promove-me” – ‘a mim’, subentendo, ‘africano pobre que ganha muito menos do que tu branco rico’.
É difícil explicar que não posso "promover" todos, mas apenas aqueles que vendiam algo que realmente preciso de comprar.
De todos estes ‘vendedores’, há um que não esquecerei nunca. O vídeo que apresento a seguir foi filmado (à socapa, desculpem a qualidade) numa lenta e chatíssima viagem (10 horas) entre Nairobi e Mombasa, com um enorme ponto de interesse: a primeira meia-hora ficou marcada por este ‘vendedor da palavra de Deus’. Um simpático arcebispo (soube depois) atropelado por vendedores de tudo e mais alguma coisa enquanto prega nos estreitos corredores dos lotados autocarros de baixa qualidade do Quénia.
Espero, sinceramente, que o visado nunca encontre este vídeo nas gigantes malhas da Internet, nem leve a mal a sua divulgação. Talvez de me ver a chorar de tanto rir, no final, dirigiu-me simpaticamente a palavra e trocámos e-mails.

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Bichos (e mais bichos)

Gosto de bichos. Pequenos ou grandes. Selvagens ou domésticos. Que andam em terra, na água ou no ar. Há malucos para tudo: uns gostam de beber copos no Bairro Alto; eu prefiro ver peixes na praia ou flamingos no Tejo, mas não sei se vou continuar a achar-lhes a mesma piada.
Viajar para mim é sobretudo conhecer novas culturas e novas formas de encarar ou passar pela vida. África apresenta esse grande atractivo – 40 e tal tribos num país, não sei quantas línguas... –, mas também tem os bichos – que nunca imaginei encontrar em tão grande quantidade.
Adorei as pessoas e ver os seus comportamentos diários, mas este extra africano e sobretudo queniano deixa marcas.
Em reservas, mas de forma inacreditável também fora delas, encontrámos centenas de espécies que nunca pensei ver tão perto em ambiente selvagem. Quase dormimos com hipopótamos. Estivemos ao lado de leões ensonados depois da caça. Dissemos adeus a crocodilos e garças enormes que não fugiam. Tomámos o pequeno almoço rodeados de pássaros de vários tamanhos e cores. Fomos assaltados por macacos. Passeámos pelo meio de zebras e búfalos. Perseguimos girafas de bicicleta.
A quantidade e diversidade é tanta, à beira da estrada ou nos campos onde dormíamos, que nunca me passou pela cabeça ser possível ver tanto animal e de uma forma tão fácil. Uma espécie de zoo sem muros.
Regresso com o receio de chegar a Portugal e não achar piada nenhuma a coisas como ver aves no Estuário do Tejo ou veados na Tapada de Mafra. Temo e ao mesmo tempo desejo, que a minha habitual memória seja de novo difusa e que volte a ficar de boca aberta quando vejo uma pequena garça branca a sobrevoar o IC19.

No caminho para Masai Mara.

Eu atrás das girafas.

Vida e morte.

Reparem nos pássaros em cima da zebra.
O pássaro secretário.
Búfalos.

Elefantes.
A traseira.
Um campo de futebol no meio dos bichos.
O rei.
Os abutres.
As chitas.
Um bicho muito estranho.
Na sesta.

O gnu.
Os gnus na migração.
Almoço.
A máquina.
Na migração.
Mais gnus.
Os primeiros hipopótamos.
A migração.
Ainda dizem que os animais não pensam: caça em grupo. Tudo de cabeça para baixo!





A alimentar os macacos de Gede.
Águia pesqueira no lago Baringo.
Um vizinho da nossa tenda.
Crianças e crocodilos.
Haaaaaa... no Lago Baringo.
Hipopótamos.
Os pelicanos e uma águia pesqueira.
As patas do hipopótamo.
Ninhos.
O (enorme) marabu.
Vacas no meio do parque nacional.
O verdadeiro rei.
Passáros em Jinja
Formigas em Entebe.
Comichão.
Lago Bogoria.
Uma visita de estudo.

Os flamingos do lago Bogoria.



Reparem no crocodilo em cima do hipopótamo.
Nascer do sol com os hipopótamos.
Maria-café gigante?

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A feira popular na savana.


Vasco da Gama vs. Cristiano Ronaldo

Durante anos pensei que só nós estudamos e damos importância aos Descobrimentos: história para português ter orgulho no seu país e não querer ser espanhol.
Fora de fronteiras e longe de Portugal só me falavam do país por causa do futebol – pronto, é verdade, uma vez falaram-me da cortiça...
É isso, a bola e os seus jogadores (por vezes também treinadores) que nos faz ser minimamente conhecidos no mundo e não passarmos de um nome que a maioria dos habitantes deste planeta nunca ouviu. Gostemos ou não, é a verdade.
Por aqui o futebol também é aquilo que mais sai da boca quando se fala de Portugal, sobretudo em países loucos com o futebol que se joga nos estádios das ilhas britânicas.
Cristiano Ronaldo é hoje uma espécie de sinónimo obrigatório que se segue à palavra Portugal. Um jogador suplente na selecção portuguesa (o Nani) pode ser o tema decorativo de um matatu que liga Watamu a Malindi ao lado do Oceano Índico. As caras de jogadores como Ricardo Carvalho ou Hilário (quem?!) podem estar dentro de um matatu cheio de luzes azuis e jogadores do Chelsea por todos os lados.
No Quénia há, no entanto, excepções. Os portugueses não estiveram por ali muito tempo, mas pelo menos o nome contínua a ser ensinado nos bancos das escolas. Depois de Cristiano Ronaldo, Vasco da Gama terá sido o nome que mais ouvimos depois de dizermos Portugal.
Efectivamente, andámos mesmo por ali. Há fortes, igrejas e padrões portugueses na costa.
Um simpático guia de Mombasa com quem falámos acredita que há palavras em suaíli vindas de Portugal – mesa e chapéu dizem-se da mesma forma.
São raríssimos os portugueses que vão agora àqueles lados de África. Em vários sítios nunca tinham visto um. Perguntam-nos porquê: respondo com dinheiro, tamanho do país e hábitos culturais.
Garantem-me que o Vasco da Gama era mais alto que eu.
'Exportámos' uma quantidade inimaginável de escravos, mas não parece que sejamos mal vistos. Colonizámos algumas partes, sim. Saqueámos várias cidades, também é verdade. À palavra Portugal segue-se uma exclamação longa de “portugueses...” como se fosse uma palavra que apenas tivessem visto nos livros da escola.
O Vasco da Gama e por consequência nós, não somos bem ou mal vistos. Somos apenas um marco na história.
Como nos tentou explicar um dos muitos habitantes com quem falámos em Kampi ya Sámaki (perto do lago Baringo), sem Vasco da Gama não existia Mike Tyson, nem Michael Jordan, nem Obama na Casa Branca. Barack, se faz favor, agradece a Portugal!

E o que há ao lado de um forte português?!


Este senhor garantiu-me: Vasco da Gama era mais alto do que eu. Também não era difícil...

Um filho chamado Nokia

A língua ajuda. Ao contrário do Médio Oriente, Marrocos ou China, aqui fala-se inglês. Já não precisamos de apontar para caracteres estranhos escritos no guia e pedir direcções, confiando na sorte.
Com todas as limitações linguísticas com o inglês (deles e nossas), no Quénia e no Uganda é possível falar. Nem sempre os diálogos foram agradáveis – muitas vezes servem apenas para regatear preços. Mas tantas ou mais vezes foram instrutivos e agradáveis.
Quantos filhos tínhamos? O tempo em Portugal? A língua? O dinheiro? A pobreza? Nunca aprendi tantas palavras de uma língua estrangeira numa viagem: asante (obrigado); jambo (olá!); akuna matata (não há problema); ou mjungu (branco).
Viajar sem nada marcado implica estar a maioria das vezes dependente de quem encontramos na rua: para saber onde se apanha este ou aquele transporte; para saber onde se come; ou qual o caminho para determinado sítio.
Houve problemas, como sempre, e a pressão para comprar isto, aquilo ou aquele serviço pode ser enorme. De uma forma geral, encontrámos pessoas simpáticas, de sorriso aberto e fácil, contentes por estarmos ali, mesmo perante a desconfiança dos brancos.
Se tivermos um filho já sabemos o nome. Ficou a proposta: “Não se esqueçam: Nokia... como o telemóvel”.

Uma cidade.
outra cidade.
A lavar a roupa e o corpo.
A lavar a roupa.
Os masai.








Aqui as mulheres trabalham a sério. Pequenas e grandes.


A cozer ovos.
No lago Baringo.
Um lago (Oloiden) só nosso (e dos seus bichos)!


Viver sem carne

Sou muito esquisito com a comida. Já fui mais. Só gosto de coisas simples: massas, arroz, batatas, carne. Há uns anos percebi que tinha um problema quando comecei a ir de férias. Aos poucos fui mudando, mas contínuo a comer a 'minha' comida em casa. Quando estou fora, não tenho alternativa: como coisas que nunca imaginei e outras de que desconheço completamente a origem. Num país onde carne e peixe é um bem de luxo, descobri que consigo viver (bem) de coisas como matoke, ugali, cassava e feijões.

Nós, os ricos

Numa terra em que sou rico, sinto-me mal a comprar algumas coisas. Comer bem ao lado de quem passa fome pode ser confrangedor. Comendo, dormindo e andando nos transportes de quem vive por aqui, é possível viver com menos de 10 euros por dia. Esqueçam os parques naturais e vivemos perfeitamente bem com 25.

Nairobi é conhecida pela insegurança. As flores guardam-se com arame farpado.

Mombasa, terra muçulmana.

Mombasa.

Nunca andarás sozinho (mesmo no Quénia).

Formas de combater a corrupção.

Mida Creek. Árvores que resistem ao sal.



E para terminar, vejam a cor desta água do Índico.



Na água do Índico.

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